I Simpósio Abordagem de Vítimas de Grandes Desastres lota auditório da IPEMED

28/05/2019 às 21:11

I Simpósio Abordagem de Vítimas de Grandes Desastres lota auditório da IPEMED

 

Médicos, militares e outros profissionais discutiram sobre o atendimento a pessoas que passam por tragédias

 

Um assunto relevante, com grande espaço na mídia na atualidade e que causa grande comoção popular. Não foi por acaso que o I Simpósio Abordagem de Vítimas de Grandes Desastres contou com uma grande adesão do público, não só de médicos e acadêmicos de medicina, como era o esperado. O evento aconteceu nesse sábado, 25 de maio, na Unidade Belo Horizonte da Faculdade IPEMED de Ciências Médicas.

O simpósio contou com três mesas, divididas em temas relacionados ao resgate, ao atendimento médico e aos cuidados com as vítimas após desastres. A primeira teve o tema Gerenciamento de Respostas em Catástrofes, com a presidência do delegado Wagner Pinto de Souza, da Polícia Civil, e a moderação do coronel Isaac Martins da Silva, da Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG).

Na sequência, o major Flávio Santiago, da PMMG, falou sobre os procedimentos de segurança realizados pela instituição para a proteção das vítimas e das equipes. A PM é responsável por estabelecer o perímetro, ajudar nas buscas e na comunicação. Bastante emocionado, ele ressaltou “ a importância social de fazer a diferença na vida das pessoas”. “Nunca mais seremos os mesmos”, concluiu.

O capitão Leonard Farah, do Corpo de Bombeiros, mostrou como são feitas as buscas e salvamento das vítimas em locais de desastres. Ele trouxe imagens dos resgates em Brumadinho. “Até quando buscar? Essa é uma pergunta difícil de ser respondida, mas as famílias querem respostas. Desistir não é uma opção”, afirmou.

Uma das presenças mais aguardadas do dia, o tenente Pedro Aihara, dos bombeiros, destacou a necessidade de fazer o gerenciamento de crises. Para ele, “toda tragédia é inesperada, mas não imprevisível”. Também destacou a importância de se priorizar as necessidades reais das pessoas, ainda que fora do seu escopo de atuação. “Numa situação de tragédia, a verdadeira demanda é a da vítima”, enfatizou.

Ao final, Maria Dalce Ricas, superintendente da Associação Mineira de Defesa do Ambiente (AMDA) apresentou os riscos ambientais provocados pelas barragens de rejeitos. O geólogo Rodrigo Diniz Franco, doutorando na Universidade de Coimbra (Portugal), mostrou como grandes desastres podem contaminar as águas, prejudicando a saúde e a economia em curto e longo prazos.

 

A importância do atendimento médico de urgência

A segunda mesa teve o tema Abordagem Médica de Urgências e Emergências. Foi presidida pelo doutor Fábio Atsuhiro Kimura, membro da Associação Brasileira de Medicina de Emergência (ABRAMEDE) e da Sociedade Mineira de Terapia Intensiva (SOMITI). A moderação foi da capitã Liliane Garbazza, do Hospital da Polícia Militar de Minas Gerais.

O primeiro palestrante da mesa foi o doutor Roger Lage, do Serviço de Atendimento Médico de Urgência de Belo Horizonte. O médico explicou todo o processo de triagem de traumas no meio pré-hospitalar. Já o doutor Lucas Coimbra mostrou como é feito o gerenciamento de risco no Hospital Risoleta Neves, referência em atendimento de urgência e emergência em Minas Gerais.

Da mesma forma, o doutor Tarcísio Versiani apresentou como esse processo é feito no Pronto-socorro do Hospital João XXIII, um dos mais importantes centros de atendimento de alta complexidade no estado. Para o médico, um dos pontos fortes da instituição é a humanização no atendimento em todas as etapas. Por fim, o doutor Frederico Anselmo, da SOMITI, explicou como é feito o treinamento dos médicos para atuarem em emergências.

 

O papel dos profissionais no acompanhamento pós-traumático

A última mesa, no período da tarde, teve o tema Atuação Multiprofissional em Grandes Desastres. Foi presidida pelo delegado Arlen Bahia, da Polícia Civil de Minas Gerais, com a moderação da professora Cíntia de Carvalho, do curso de Pós-graduação em Terapia Intensiva Neonatal da IPEMED e membro da ABRAMEDE e da SOMITI.

A primeira palestrante foi a psiquiatra Sandra Carvalhais, professora do curso de Pós-graduação em Psiquiatria da IPEMED. Ela esclareceu as diferenças de outras doenças psiquiátricas para o Transtorno do Estresse Pós-traumático, comum em vítimas de desastres. A professora destacou a importância do evento, até mesmo por tratar do sofrimento das pessoas no contexto atual. “A sensação de impotência, muitas vezes, é o que o motiva o estresse”, explicou.

Ainda falando sobre os impactos psicológicos e emocionais de uma tragédia, o coronel Cícero Nunes, da PMMG, ressaltou como é importante oferecer o suporte para as vítimas em todos os sentidos. Neste sentido, o policial, que também é pastor evangélico, falou sobre como o bem-estar espiritual pode ajudar na recuperação das pessoas depois de um trauma, inclusive das equipes de resgate.

Não só no aspecto psicológico e emocional, os desastres também podem afetar as pessoas econômica e socialmente. Por isso, o promotor Guilherme de Sá Meneghin, do Ministério Público Estadual, explicou as diferentes punições em casos como o de Mariana, no qual atuou diretamente. Ele cobrou mais responsabilidade técnica e humana de médicos, advogados e engenheiros em situações como essa, sendo taxativo: “não é acidente”.

As duas últimas palestras do simpósio focaram na atuação da perícia médica. O doutor Élcio Nascentes Coelho, do Instituto Médico Legal (IML) e da Polícia Civil de Minas Gerais, explicou como a perícia pode ajudar na avaliação dos danos físicos e traumáticos causados nas vítimas.

Já o doutor Leonardo Santos Bordoni, legista do IML, mostrou como é a atuação do médico legista para a identificação das vítimas e para a declaração da causa das mortes. Segundo ele, esse é um processo demorado, que envolve técnicas modernas e o trabalho de muitas pessoas. Ainda assim, no caso de Brumadinho, muitas vítimas ainda não foram identificadas e, por isso, o trabalho continua, mesmo depois de 4 meses.

 

Compromisso com a responsabilidade social

Ao final das palestras, a professora Cíntia Carvalho, professora da IPEMED, destacou quanto iniciativas como o simpósio são necessárias para reavivar o debate sobre o impacto causado por grandes desastres. Para ela, ainda que seja difícil, essas situações de múltiplas vítimas precisam ser discutidas, sendo o principal assunto da atualidade.

O gerente da unidade Belo Horizonte, José Alves, afirmou que é muito importante para a IPEMED se posicionar em um tema tão relevante para o estado e para todo o país. “É necessário nos posicionarmos como uma instituição de ensino, provocando em todos uma reflexão sobre o que acontece hoje, o que a gente pode fazer para melhorar”.

José Alves, ressaltou, ainda, o quanto a IPEMED, como faculdade da área médica, tem um papel fundamental na formação dos profissionais em todos os sentidos. “Acho que a nossa grande importância é essa: além de ser uma instituição de ensino, a gente tem que pensar, também, nas pessoas, como melhorar a vida das pessoas”, concluiu”.

 

Confira as fotos do evento: